Luz e Sombras: O caminho é dentro.
Ainda não compreendo plenamente o ser humano.
Somos feitos de incontáveis elementos, experiências e sentimentos. Ainda assim, parecem ser justamente aqueles que nos ferem os que mais se destacam em nossa existência:
Raiva.
Medo.
Dor.
É curioso observar que, mesmo quando estamos nos afogando, muitas vezes preferimos sucumbir a aceitar a mão que nos é estendida. Se o barco que surge no horizonte é conduzido por forasteiros, por rostos desconhecidos e vozes que não reconhecemos, desconfiamos de sua intenção, mesmo quando ela é tão nobre quanto a nossa.
— É impossível que existam outros como nós — suspira aquele que afunda, enquanto mantém os olhos voltados para o céu, esperando que Deus desça das alturas e venha resgatá-lo pessoalmente.
— Nossa causa é maior. Somos os escolhidos — repete para si mesmo, enquanto se afoga nas próprias convicções.
E assim permanece, aguardando um socorro que considera digno de sua espera. Não pode vir dos desconhecidos. Não pode vir daqueles que remam em sua direção. Deve vir dos mensageiros celestiais que imagina merecer. Enquanto espera, as águas turvas o envolvem cada vez mais.
As antigas histórias do Rei Arthur nos oferecem uma reflexão semelhante. Os cavaleiros da Távola Redonda compartilhavam os mesmos ideais. Honra, justiça e a construção de um reino melhor. Contudo, apesar de desejarem o mesmo destino, acabaram seguindo caminhos diferentes.
Alguns confiaram na espada.
Outros confiaram na fé.
Alguns escolheram a obediência.
Outros seguiram a voz da própria consciência.
Não foram os objetivos que os separaram, mas as estradas que decidiram percorrer para alcançá-los.
Por isso, nem toda distância nasce da discórdia. Muitas vezes, ela surge quando duas almas contemplam o mesmo horizonte e escolhem trilhas distintas para chegar até ele.
Talvez o que mais frequentemente nos afogue não seja a ausência de luz, mas a convicção de que a luz só pode surgir da direção que escolhemos para procurá-la. Enquanto aguardamos anjos descerem dos céus, ignoramos os marinheiros que remam ao nosso encontro.
Hoje, busco aqueles que lutam nas mesmas trincheiras em que também travo minhas batalhas. Não procuro pessoas iguais a mim. Procuro aqueles que me complementam.
Aprendi que não sou inteiro na semelhança, mas na diversidade. Sou feito de contradições. Também carrego em mim a raiva, o medo e a dor. Por isso, valorizo aqueles que me oferecem amor quando me falta ternura, consolo quando me falta esperança e paz quando o conflito habita meu coração.
Se alguns escolhem a espada e outros escolhem a oração, pouco importa.
A espada e a oração não percorrem a mesma estrada, mas podem servir ao mesmo propósito.
Não procuro iguais.
Procuro companheiros de jornada que, sendo diferentes de mim, me ajudem a lembrar quem sou e a construir aquilo que sozinho jamais poderia alcançar.
Frater Draco

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